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18/01/2017 | Fernando Siqueira: “o acordo com Total é um ato criminoso”

“Parente está entregando 22,5% do campo de Iara e 35% do campo de Lapa a estrangeiros para receber US$ 1,6 bilhão, ou seja, um dólar e pouco por barril, denuncia o vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás"

O vice-presidente da Aepet, Associação dos Engenheiros da Petrobrás, Fernando Siqueira, denunciou, em entrevista ao HP e à Rádio Independência, o processo de desmonte da Petrobrás, levado a cabo por Pedro Parente, atual presidente da estatal. Siqueira lembrou que Parente é réu em processo movido pelo Sindicato dos Petroleiros do RS, quando ele quis vender a Refap, na década de 90. A negociata foi denunciada e a justiça impediu que ela fosse concretizada. Isso depois de Parente ter provocado um prejuízo bilionário à empresa com venda subavaliada das ações da Petrobrás na Bolsa de Nova Iorque. Ele condenou também o acordo no valor de US$ 2,2 bilhões - uma parte à vista e o restante conforme o caso - feito pela Petrobrás com petroleira francesa Total, no apagar das luzes de 2016, onde a direção da estatal brasileira burla a proibição da venda de ativos por parte do TCU e repassa para a empresa do cartel três campos do pré-sal. Leia a íntegra da entrevista.

Hora do Povo - O atual presidente da Petrobrás, Pedro Parente, está anunciando a venda de ativos valiosos da estatal. Como você avalia essas atitudes?

Fernando Siqueira – Em primeiro lugar é bom lembrar que Pedro Parente foi do Conselho de Administração da Petrobrás de 1999 a 2003 e nesse período ele comandou um processo de desnacionalização da companhia. Ele vendeu 36% das ações na Bolsa de Nova Iorque por US$ 5 bilhões e elas valiam mais de US$ 100 bilhões. Ele fez uma troca de ativos seguindo uma proposta do Credit Suisse First Boston, que foi o banco que coordenou a privatização da YPF, que era a Petrobrás da Argentina. Então esse banco apresentou um plano à Petrobrás para privatizá-la por partes. Vendia-se as subsidiárias, depois dividia-se a holding em quarenta unidades de negócio e cada unidade seria privatizada isoladamente. Então esse plano foi adiante e chegou-se a privatizar a primeira unidade de negócio, que foi a Refap (Refinaria Alberto Pasqualini), no Rio Grande do Sul. Mas eles fizeram uma negociata e nós entramos na justiça e ganhamos a liminar. Ele perderam o processo. Nós ganhamos através do Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Sul. Pedro Parente é réu nessa ação no superior Tribunal de Justiça. Agora o Pedro Parente retornou à Petrobrás para retomar o processo de desmonta da companhia. Então ele está vendendo os ativos mais estratégicos da empresa, a malha de gasodutos do Sudeste, está vendendo a maioria das ações da Petrobrás Distribuidora, está vendendo a participação no gás. Então esse processo que o Pedro Parente está conduzindo é a retomada do desmonta da Petrobrás como empresa nacional. Ele quer entregar o pré-sal para as empresas do cartel.

HP – Como você avalia o acordo entre a Petrobrás e a Total, anunciado pela direção da estatal brasileira?

Siqueira – A Total era um empresa francesa que se juntou com a Elf e a Fina da Bégica.  E as três foram compradas pelo dono do cartel que é a família Rothschild. A Total agora faz parte do cartel, é um braço do cartel. No Campo de Libra foram entregues 20% para a Total e 20% para a Shell e as duas são do mesmo dono. Então esse acordo da Petrobrás com a Total é absolutamente lesivo ao interesse nacional. Ele não só está vendendo, por exemplo, o Campo de Iara, 22,5%, e mais 35% do Campo de Lapa, isso dá uma reserva na ordem de um bilhão de barris. Ele está vendendo para receber US$ 1,6 bilhão, ou seja, um dólar e pouco por barril. São 22,5% do campo de Iara que tem 4 bilhões de barris de reserva  e 35% do Campo de Lapa e de quebra ele está dando de presente a participação da Petrobrás que tem 50% do Campo de Xerelete Sul, na Bacia de Campos. Esse acordo com a Total é uma entrega do petróleo nacional para o cartel do petróleo. A Total faz parte desse cartel.

HP - Esse tipo de contrato é legal? Ele é previso na legislação atual?

Siqueira - Não. Eles estão burlando a lei. É até uma piada o que eles estão dizendo. O TCU proibiu a venda de ativos pela Petrobrás. Aí eles estão dizendo que isso não é uma venda de ativos. É um “acordo de desenvolvimento conjunto de tecnologia”. Acordo esse que a Petrobrás cede um bilhão de barris e recebe US$ 1,6 bilhão.

HP - Você vê alguma maneira de parar esse processo de desmonte?

Siqueira - Estamos reunindo um grupo de senadores da oposição para tomarmos medidas jurídicas contra esse processo. Temos que parar esse processo de desmonte da companhia. 

HP - E os demais ativos que estão sendo vendidos?

Siqueira - A rede de gasodutos, a NTS (Nova Transportadora do Sudeste), 60% do gás natural passa por ela. É uma rede de gasodutos que é um monopólio natural porque ninguém faz uma rede em paralelo para concorrer. Então o Pedro Parente está cedendo esse monopólio natural que a Petrobrás usa para escoar o seu gás do pré-sal e que foi construído pela Petrobrás. Está cedendo isso para a Brascan [ grupo canadense de  fundo de investimentos e participações gerido pela Brookfield] que na década de 80 vendeu para o governo a concessão da Light o último ano de vigência da concessão. Quer dizer, a concessão passaria naturalmente para o governo e o governo pagou dois bilhões de dólares por uma coisa que já era dele.  Essa é a Brascan que está assumindo a malha de gasoduto fundamental para o Sudeste. Mais um absurdo é que o contrato prevê uma cláusula que se você não usar 100% da malha, você paga os 100%. Ocorre que quando você projeta uma rede de gasoduto, você projeta com o dobro da capacidade porque você daqui a dez anos teria que fazer outra rede, então se você prevê que em dez anos vai usar o dobro da capacidade, você já projeta desde já para o dobro da capacidade em dez anos. A Petrobrás vai pagar a parte ociosa para a Brookfield. O outro absurdo é que você fica inteiramente na mão de um operador estrangeiro, um especulador que vai transportar o seu gás. E esse gás é associado ao petróleo brasileiro. Se você não movimentar esse gás, vai ter que parar a produção de petróleo. São dois descalabros a venda do gasoduto e o acordo com a Total. É criminoso esse processo do Pedro Parente.

HP - Num  artigo publicado pela Aepet, é revelado que a Graça Foster proibiu 28 empresas de participarem de contratos com a Petrobrás. Muitas delas, inclusive, segundo o artigo, não estavam sendo investigadas pela Lava Jato. Agora o Pedro Parente anunciou a retomada das obras na Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), mas chamou apenas trinta empresas estrangeiras para disputar os contratos. Como é que você vê isso?

Siqueira - Isso é uma sabotagem aberta à engenharia nacional. Dizem que há uma suspeita que o Sérgio Moro estaria sendo monitorado pelos EUA. Nós somos favoráveis ao combate à corrupção e,por exemplo, prender os controladores das empresas que fizeram a corrupção. Então a Odebrecht tem 72 controladores envolvidos na Lava Jato. Prenda esses caras. Mas os duzentos mil funcionários da empresa? Não podem ficar paralisados. Na Petrobrás temos 80 mil funcionários honestos e competentes. Se vinte se corromperam, prendam-se esses vinte. Mas o resto tem que continuar trabalhando.

HP - Mas o fato é que tem empresas que não estão envolvidas na Lava Jato, mas continuam impedidas de fazer contratos com a Petrobrás por decisão da Graça Foster e até agora essa situação não mudou. Aí o Pedro Parente que é um entreguista aproveita para só chamar empresas estrangeiras. Essas empresas brasileiras poderiam retomar os contratos e não foram chamadas. Afinal há muitas empresas capazes de fazer essa obra. 

Siqueira - Essa decisão de só chamar empresas estrangeiras é uma agressão à engenharia nacional. É bom lembrar que a construção do Comperj que vão fazer agora não são as refinarias que a gente precisaria para fazer o refino. Vão fazer um PGM, uma unidade de processamento de gás natural e essa PGM processa o gás do pré-sal. Se ela não sair o pré-sal também para. Assim como o gasoduto transporta o PGM processa o gás do pré-sal e ela é fundamental para que continue o processo de produção. O objetivo do Parente é colocar essas empresas e transformá-las em donas da PGM. Ou sócias majoritárias. Então, da mesma maneira você fica na mão de empresas estrangeiras de um produto extremamente estratégico para o país que é o gás do pré-sal, o gás associado. É um absurdo abrir mão de uma empresa dessa importância em favor do capital estrangeiro.

Fonte: Hora do Povo/Sérgio Cruz

 

 

 
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